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Riscos globais em 2026: geoeconomia, tecnologia e ambiente num mundo em tensão
Por Dina Rato, ROC e senior adviser em Governance, Risk & Compliance
23 Jan 2026 - 07:15
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Janeiro convida a perspetivar o futuro, a equacionar escolhas e direções. Incentiva o exercício difícil de antecipação de riscos diversos, complexos e interligados, num panorama de crescente instabilidade e volatilidade, cujas consequências e ramificações nem sempre são lineares ou previsíveis.
O World Economic Forum (WEF), no Global Risks Report 2026, revela que o confronto geoeconómico foi considerado o risco mais significativo nos próximos dois anos a nível global, o que não surpreende considerando que 2025 registou cerca de 60 conflitos armados ativos em todo o mundo, o número mais elevado desde a Segunda Guerra Mundial (Eurasia Group).
A nova política norte-americana, o crescente multilateralismo, a instrumentalização da economia e do comércio para fins de pressão geopolítica, a erosão de confiança nas instituições internacionais e as crescentes desigualdades contribuíram para este agudizar das tensões geoeconómicas e geopolíticas, que, por vezes, apresentam contornos menos visíveis.
A European Union Agency for Cybersecurity (ENISA) identifica atividades de ciberespionagem e manipulação de informação por atores alinhados com a Rússia, visando a recolha de informação estratégica de governos, infraestruturas críticas e setores sensíveis como defesa, energia e investigação, bem como campanhas coordenadas que exploram eventos como guerras, eleições e crises para enfraquecer a confiança nas instituições europeias, polarizar a opinião pública e influenciar processos políticos, integradas em estratégias híbridas que combinam ações de inteligência, cibernéticas e geopolíticas.
Acresce que drones comerciais de baixo custo, facilmente adaptáveis para transportar explosivos, são hoje usados por grupos rebeldes, criminosos e insurgentes em países como Myanmar, Sudão, Colômbia e Brasil. Entre 2020 e 2024, os incidentes com drones a nível global aumentaram de cerca de 6.000 para 51.000, com o número de mortes a subir de 11.300 para mais de 39.000.
Na Europa, a Rússia utiliza drones como instrumento de “zona cinzenta” sobre espaço aéreo, aeroportos e infraestruturas críticas, explorando o seu baixo custo, a dificuldade de deteção e o elevado custo da defesa. A integração de inteligência artificial, com drones autónomos e em enxame, tende a ampliar ainda mais o potencial de disrupção e destruição, elevando os riscos para a segurança, as infraestruturas e as cadeias de abastecimento (Eurasia Group).
A desinformação, os efeitos adversos da inteligência artificial (IA) e a ciberinsegurança estão também no topo da lista de riscos no Global Risks Report 2026 do WEF, refletindo preocupações com enviesamentos algorítmicos, decisões automatizadas sem supervisão, impactos no emprego, riscos legais e perda de confiança nos sistemas digitais.
De acordo com o Global Cybersecurity Outlook 2026 do WEF, 94% das organizações consideram a IA o principal motor de transformação do risco cibernético, 87% identificam as vulnerabilidades associadas à IA como o risco de crescimento mais rápido e apenas 64% avaliam sistematicamente a segurança das ferramentas de IA antes da sua implementação.
O Risk in Focus 2026, da Internal Audit Foundation (IAF), indica que, embora a disrupção digital e a IA sejam riscos considerados relevantes pelas organizações, as funções de auditoria interna não os têm priorizado devidamente, sobretudo por falta de recursos e conhecimento especializado.
O ENISA Threat Landscape 2025 destaca a amplificação potenciada pela IA de vetores como phishing, exploração de vulnerabilidades, ataques à administração pública e riscos nas cadeias de fornecimento digitais.
Os EUA e a China lideram a IA com estratégias distintas: os EUA apostam em modelos de ponta, sustentados por elevados investimentos privados, com risco de sobrevalorização de mercado, enquanto a China privilegia soluções de IA “suficientemente boas” e de baixo custo, focadas na adoção em larga escala e na eficiência prática, apoiadas por investimentos em energias renováveis, infraestruturas elétricas estatais, rápida construção de centros de dados e integração do planeamento energético com o desenvolvimento digital.
A Europa, embora presente no desenvolvimento de IA, não dispõe de posição assinalável.
Os riscos ambientais — eventos climáticos extremos, poluição, perda de biodiversidade, colapso dos ecossistemas, alterações críticas nos sistemas planetários e escassez de recursos naturais — estão também no topo das preocupações, especialmente nos próximos dois anos entre os respondentes até aos 39 anos, e a 10 anos de forma transversal.
Os eventos climáticos extremos provocam danos imediatos em redes de energia, transportes e abastecimento de água, mas os efeitos indiretos — como interrupções prolongadas, aumento de custos logísticos e reconfiguração de rotas comerciais — podem ser ainda mais severos, como demonstrado pelas secas no Canal do Panamá e nos rios Reno e Danúbio. Pode ocorrer que infraestruturas se tornem inadequadas, como centrais hidroelétricas em regiões sujeitas a secas prolongadas.
A perda de biodiversidade afeta a segurança alimentar e a atividade económica, enquanto a escassez de recursos naturais gera insegurança hídrica e alimentar. A poluição, ao degradar o ar, a água e os solos, compromete a saúde, afeta ecossistemas e gera custos económicos. Num contexto de escassez, a disponibilidade de recursos torna-se um instrumento de poder e pressão estratégica.
É o que se verifica com a água, que passou de questão humanitária a questão de segurança: cerca de metade da população mundial vive sob stress hídrico durante parte do ano, mais de 1,8 mil milhões de pessoas enfrentam escassez absoluta e a combinação de alterações climáticas, crescimento urbano, pressão sobre bacias hidrográficas e fragilidade dos sistemas de abastecimento torna o controlo da água um fator de influência sobre populações, economias e estabilidade regional.
Em situações de vulnerabilidade, grupos armados exploram a escassez para exercer controlo social, enquanto entre Estados a gestão de rios e infraestruturas hídricas ganha peso estratégico, como ilustram as tensões em torno do Nilo entre o Egito e a Etiópia, a suspensão do Tratado das Águas do Indo entre a Índia e o Paquistão, ou a construção de megabarragens chinesas em rios transfronteiriços da Ásia (Eurasia Group).
As escolhas estratégicas de energia dos EUA e da China são distintas e relevantes em diversos contextos. Na competição designada pelo Eurasia Group como “moléculas versus elétrons”, os EUA apostam em combustíveis fósseis, exportações de gás natural liquefeito e infraestruturas tradicionais; a China investe no “electric stack” (eletricidade, baterias, motores, redes inteligentes, centros de dados e energias renováveis), base de tecnologias como veículos elétricos, drones, robótica e IA, permitindo a implementação massiva de IA e sistemas autónomos.
A opção dos EUA prolonga a exposição a riscos climáticos, poluição e pressão sobre recursos naturais, enquanto a da China, embora ainda dependente do carvão, tem intensificado escolhas no sentido da expansão das energias renováveis.
Geopolítica, tecnologia, cibersegurança e ambiente interagem de forma cada vez mais complexa, amplificando vulnerabilidades económicas, sociais e institucionais. Os riscos são cada vez mais sistémicos, interligados e cumulativos.
A resposta não pode ser fragmentada nem reativa: exige abordagens integradas e decisões estratégicas de longo prazo, que ditarão a posição relativa de países, organizações e sociedades num mundo marcado por assimetrias, em que a incerteza e a volatilidade se tornaram a nova normalidade.
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