5 min leitura
Portugal Valley: Quando o potencial deixa de ser desculpa
Gonçalo Freire, Diretor de Open Innovation da Swiss Fintech Association (SFTA)
18 Dez 2025 - 15:56
5 min leitura
Mais recentes
- 2025 bateu o recorde de depósitos de particulares nos bancos
- Revolut lança primeiro cartão ‘ultra-premium’ para empresas no Reino Unido
- DBRS vê sistemas de pagamentos sem impacto com o conflito no Médio Oriente
- Novo Banco debate descarbonização e resiliência a riscos climáticos em ‘Semana da Sustentabilidade’
- Dono do brasileiro Banco Master detido
- Suíça já escolheu as novas notas para 2030
Há uma frase que surge com frequência quando se fala de empreendedorismo em Portugal. Repete-se há anos, em contextos variados, como uma espécie de tranquilização coletiva. Portugal tem tudo para se tornar o Silicon Valley da Europa.
A afirmação não está errada. Mas hoje, diz pouco.
O mundo em que essa comparação fazia sentido já não existe. A economia global está mais fragmentada. A Europa cresce lentamente, as cadeias de valor estão a ser transformadas e a tecnologia deixou de ser apenas uma questão de eficiência. Passou também a ser uma questão de soberania. Neste contexto, a pergunta central já não é se Portugal consegue copiar um modelo externo. É se Portugal consegue construir um papel próprio num cenário global mais instável e competitivo.
Nos últimos quinze anos, o país mudou de forma discreta. Criou empresas tecnológicas com impacto global, atraiu talento internacional e construiu uma reputação de fiabilidade num mundo cada vez mais imprevisível. Hoje, Portugal conta com um ecossistema de startups vibrante e em rápido crescimento, com mais de 5.000 startups ativas em 2025. Este número representa cerca de 1% das empresas ativas no país, sublinhando a importância crescente do setor para a economia nacional.
De acordo com o Portugal’s Startup Ecosystem Report 2025, o volume de negócios total do setor atingiu cerca de 2,85 mil milhões de euros, registando um crescimento aproximado de 9% face a 2024. As startups portuguesas empregam cerca de 28.000 pessoas e geram mais de 1,57 mil milhões de euros em exportações, contribuindo com aproximadamente 1,5% das exportações nacionais.
Embora muitas destas empresas mantenham sedes ou operações internacionais por razões estratégicas, o seu sucesso evidencia o talento e a ambição existentes no ecossistema português.
Esta transformação não ocorreu no vazio. Aconteceu num momento em que Portugal passou a ser percecionado como um país aberto, estável e europeísta, com ligações naturais a África e à América Latina e, cada vez mais, ao Médio Oriente e à Ásia. Num período em que a geopolítica voltou a influenciar decisões económicas, estas características deixaram de ser detalhes secundários para se tornarem vantagens estratégicas.
Lisboa tornou-se o símbolo mais visível desta abertura, mas o fenómeno vai muito além da capital. O que se observa no Porto, em Braga, em Aveiro ou em Coimbra demonstra que a inovação em Portugal não se limita aos grandes centros urbanos. Muitas vezes nasce da engenharia, da indústria, da ciência aplicada, da saúde ou da energia. Áreas que, num mundo mais incerto, deixam de estar na periferia para ocupar um lugar central.
É aqui que reside uma vantagem que poucos países europeus possuem, a escala humana. Portugal é pequeno, mas denso. Pessoas, instituições e decisores estão próximos. As universidades dialogam com as empresas, as empresas interagem com os reguladores e os reguladores conhecem o terreno. Nem sempre funciona de forma perfeita, mas quando funciona, permite algo raro na Europa, testar, ajustar e escalar rapidamente. Isto faz de Portugal um terreno atrativo para experimentar soluções em áreas como fintech, saúde digital, sustentabilidade, mobilidade ou energia, setores centrais nas transições económica e climática em curso.
Este papel ganha particular relevância num contexto europeu marcado por crescimento lento e fragmentado. A Europa precisa de novos motores de desenvolvimento, mas também de ambientes de confiança onde inovação e regulação consigam coexistir de forma eficaz. Portugal pode ser um desses espaços. Não o maior, nem o mais ruidoso, mas um dos mais fiáveis.
Apesar destes avanços, o país continua preso a uma narrativa de potencial. Há talento, mas está distribuído de forma desigual. Existem startups fortes, mas poucas conseguem escalar com clientes nacionais. Há programas públicos, mas muitos não sobrevivem a um ciclo político completo. O risco não está na falta de ambição, mas na falta de consistência. Num mundo instável, a fiabilidade institucional torna-se um ativo económico valioso.
Os países que hoje exercem uma influência desproporcionada no ecossistema global de inovação não chegaram lá por acaso. Israel fez da tecnologia uma questão de sobrevivência económica. A Estónia transformou a digitalização numa política de Estado. A Suíça construiu décadas de confiança institucional. Em todos os casos, a inovação foi encarada como uma estratégia, não como uma moda.
Portugal encontra-se agora num ponto semelhante de decisão. Já demonstrou que consegue criar empresas relevantes. Provou que sabe atrair talento e investimento. Falta transformar tudo isso numa estrutura coerente. Não um único grande polo, mas vários ecossistemas especializados, ligados entre si. Lisboa como plataforma internacional. O Norte como motor industrial e tecnológico. O Centro como polo de ciência e saúde. O interior como laboratório de sustentabilidade e energia. Um país pequeno, mas articulado.
Existe hoje uma geração que vê o empreendedorismo não apenas como a criação de empresas, mas como uma forma de garantir relevância económica num mundo competitivo. Quer que Portugal seja não só um bom país para viver, mas um país que contribui para resolver problemas reais, dentro e fora das suas fronteiras.
Se talento, investimento e instituições conseguirem alinhar-se em torno de uma visão de longo prazo, Portugal não será o Silicon Valley da Europa, mas sim algo mais ajustado ao tempo em que vivemos. Um país fiável num mundo imprevisível e, precisamente por isso, um país essencial.
Mais recentes
- 2025 bateu o recorde de depósitos de particulares nos bancos
- Revolut lança primeiro cartão ‘ultra-premium’ para empresas no Reino Unido
- DBRS vê sistemas de pagamentos sem impacto com o conflito no Médio Oriente
- Novo Banco debate descarbonização e resiliência a riscos climáticos em ‘Semana da Sustentabilidade’
- Dono do brasileiro Banco Master detido
- Suíça já escolheu as novas notas para 2030