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Portugal e a encruzilhada da inovação financeira europeia

Por Gonçalo Freire, diretor da Fintech Solutions e Luso-Ambassador da Swiss Fintech Association (SFTA)

19 Ago 2025 - 07:15

4 min leitura

O capital de risco é frequentemente descrito como o combustível da inovação, mas, na Europa, nem sempre chega à velocidade necessária para transformar avanços tecnológicos em impacto económico global. Dados da OCDE, Comissão Europeia e investigação das melhores universidades de gestão sobre o papel do venture capital em setores estratégicos demonstram que, apesar dos progressos registados, a Europa continua a enfrentar um défice estrutural na capacidade de escalar as suas empresas, particularmente em áreas como a fintech, um dos motores mais promissores para a competitividade futura da Europa.

O retrato é claro, enquanto os Estados Unidos beneficiam de um mercado unificado, com fundos de dimensão que permitem rondas superiores a 100 milhões de dólares de forma rotineira, e a China canaliza capital estatal de forma coordenada para criar “campeões nacionais” em setores-chave, a Europa opera num mosaico regulatório e financeiro fragmentado.

Este cenário limita o fluxo de capital transfronteiriço, prolonga os ciclos de crescimento e empurra startups de alto potencial para ecossistemas mais capitalizados.

O setor fintech ilustra bem esta realidade. O continente tem produzido casos de sucesso, desde bancos digitais a soluções de pagamentos e open finance mas, demasiadas vezes, vê as suas empresas mais promissoras procurar capital, clientes e mercados fora das suas fronteiras. A razão não está na falta de talento ou inovação, mas sim na ausência de condições consistentes para crescer com escala europeia, nomeadamente financiamento robusto nas fases avançadas, canais de integração regulatória e redes que liguem empreendedores, incumbentes e investidores num mesmo objetivo.

Neste contexto, Portugal enfrenta um dilema estratégico. Por um lado, beneficia de um ecossistema de talento altamente qualificado, custos competitivos e estabilidade regulatória alinhada com padrões europeus. Por outro, ainda carece da densidade de capital de risco e da maturidade de mercado que transformam hubs como Londres ou Berlim em polos globais. A resposta, no entanto, não está em tentar replicar modelos alheios na sua totalidade, mas em encontrar uma posição distinta no mapa europeu.

A especialização é um caminho possível. Tal como a investigação demonstra para outros mercados de menor dimensão, Portugal pode afirmar-se em nichos de fintech onde já possui vantagens competitivas e capacidade de criar conhecimento exportável.

Aplicações de inteligência artificial para prevenção de fraude, plataformas de open finance adaptadas às PME exportadoras ou instrumentos financeiros ligados a métricas ESG são exemplos de áreas onde a combinação de talento local e ligações internacionais pode gerar produtos de relevância europeia.

Para isso, é essencial uma estratégia integrada que envolva reguladores, investidores e incumbentes.

As práticas observadas em ecossistemas de referência apontam para três elementos decisivos. Primeiro, uma regulação experimental que não se limite a validar protótipos, mas que crie corredores claros para a adoção comercial. Segundo, capital paciente, tanto de fundos de VC internacionais como de braços de investimento corporativo nacionais, alinhados com estratégias de longo prazo. Terceiro, redes transfronteiriças que facilitem a expansão imediata para outros mercados europeus após a prova de conceito.

O papel do Corporate Venture Capital (CVC) merece destaque. Na Europa, e particularmente em setores regulados como a banca e os pagamentos, o CVC tem funcionado como ponte entre startups e o mercado, encurtando o tempo de integração e proporcionando não apenas capital, mas também credibilidade e acesso a clientes.

Em Portugal, a articulação entre grandes grupos financeiros e tecnológicas emergentes continua tímida, mas poderia, com incentivos adequados, tornar-se um motor de inovação e crescimento.

A transição digital do setor financeiro europeu não se fará de forma homogénea. Haverá países que permanecerão como recetores de inovação desenvolvida noutros mercados e outros que moldarão os padrões a seguir. Portugal pode escolher estar no segundo grupo, mas para isso precisa de alinhar políticas públicas, capacidade de financiamento e foco estratégico.

A Europa vive um momento de redefinição no equilíbrio de forças da inovação financeira. A forma como posicionarmos o país nos próximos anos determinará se seremos apenas um ponto de passagem para empresas em busca de capital, ou se assumiremos um papel ativo na construção das soluções financeiras que marcarão a próxima década.

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