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Desdolarização, um Mito ou uma Megatendência? CFA Portugal traz o debate a Lisboa

Este foi o mote para um evento da CFA Society Portugal que decorreu este mês na Fundação Cidade de Lisboa com a participação de especialistas internacionais.

02 Dez 2025 - 18:20

5 min leitura

Guatham Samarth, Systematic Investment Strategies, M&G, foi um dos oradores presentes

Guatham Samarth, Systematic Investment Strategies, M&G, foi um dos oradores presentes

No passado dia 18 de novembro, a CFA Society Portugal organizou, na Fundação Cidade de Lisboa, um evento dedicado ao futuro do dólar enquanto moeda de reserva, nomeadamente sobre a tendência global da desdolarização.  O evento participado por um conjunto significativo de profissionais de Banca e Finanças contou com a intervenção de Michael Biemann, da PIMCO, de Benjamin Louvet, da OFI Asset Management, Gautam Samarth, da M&G Investments bem como, de Pedro Barros, do Banco Best.

O Real português já foi moeda de reserva global  

Gautam Samarth abriu o evento lembrando que a hegemonia monetária sempre foi cíclica. Do florim de Florença ao real português no século XV, passando pela libra esterlina, várias divisas assumiram o estatuto de moeda de reserva global. Para isso, destacou, uma moeda precisa de força económica, estabilidade institucional, mercados de capitais profundos, convertibilidade e poder geopolítico.

A condição de moeda dominante traz benefícios — como procura inelástica pelos seus ativos e capacidade de financiar défices comerciais — mas também incentiva o crescimento da dívida pública.

Segundo Samarth, a tendência atual de desdolarização tem origens claras: perda relativa do peso económico dos EUA, desgaste de credibilidade pelo uso do dólar como instrumento geopolítico e pressões fiscais crescentes. O reforço das reservas em ouro por vários bancos centrais é, para o economista, um sintoma dessa evolução. Ainda assim, concluiu, o desvio face ao dólar permanece limitado e não há sinais de substituição iminente.

Guatham Samarth, Systematic Investment Strategies, M&G, foi um dos oradores presentes

Guatham Samarth, da M&G, lembrou que o real português já foi moeda de referência

O dólar em mau ano, mas sem sucessor à vista

Michael Biemann, da PIMCO, lembrou que a discussão sobre o declínio do dólar surge ciclicamente — nos anos 70 com o fim de Bretton Woods, nos anos 90 com o surgimento de blocos económicos alternativos e na crise de 2007-2009.

Apesar de reconhecer que o dólar atravessa “um mau ano”, Biemann vê o processo de desdolarização como gradual e prolongado. Os bancos centrais continuam a preferir o USD como reserva, mas o seu peso no comércio global tem diminuído, em parte devido às tarifas e à fragmentação do sistema comercial.

O aumento da dívida pública norte-americana é um fator de atenção, mas nos próximos cinco anos o cenário mais provável é o status quo: prémios de risco ligeiramente mais altos para Treasuries e credibilidade americana intacta. Crises de confiança ou uma consolidação fiscal profunda são hipóteses menos prováveis.

Para investidores, Biemann recomendou prudência com a duration na dívida americana, reforço de diversificação global e maior exposição a cabazes de moedas desenvolvidas e emergentes como forma de mitigar períodos de fraqueza do dólar.

Michael Biemann, da PIMCO

Segundo Michael Biemann, da PIMCO, o processo desdolarização será gradual e prolongado

Ouro, o refúgio que voltou ao centro

A terceira intervenção, de Benjamin Louvet, centrou-se na dinâmica do ouro. O gestor da OFI sublinhou que, desde março de 2022, se verificou uma descorrelação histórica entre o metal precioso e as yields das Treasuries a 10 anos: o ouro disparou mesmo quando as yields caíram. A invasão da Ucrânia pela Rússia foi, no seu entender, o ponto de viragem.

A decisão ocidental de congelar ativos russos abalou o estatuto do dólar como “porto seguro”, incentivando países com excedentes comerciais — sobretudo asiáticos — a reforçar reservas de ouro. O mercado do metal está hoje cada vez mais dependente da Ásia.

Louvet sublinhou que o ouro, apesar de não gerar cupões ou dividendos, não tem risco de contraparte, característica que se tornou mais valiosa num ambiente geopolítico tenso. Também rejeitou a possibilidade de criptoativos substituírem o ouro — muitos operam através de stablecoins e, por isso, seguem a trajetória do dólar.

Benjamim Louvet, gestor da OFI

A intevrenção de Benjamim Louvet, gestor da OFI, centrou-se no estatuto do ouro.

Debate: entre o realismo e o ceticismo

No debate final, moderado pelo Pedro Barros, do banco Best, os três especialistas convergiram num ponto: há sinais de desdolarização, mas faltam alternativas credíveis para substituir o dólar.

Samarth defendeu uma posição intermédia: o USD continuará dominante, ainda que com erosão gradual. Questionou se o sistema global precisa sequer de uma moeda de reserva única, lembrando o impacto crescente dos acordos bilaterais no comércio internacional. Sublinhou ainda que a China não tem incentivos para promover o yuan como divisa de reserva, pois isso prejudicaria a sua competitividade externa.

Biemann reconheceu o papel crescente do ouro e admitiu que ativos digitais poderão alterar o ecossistema monetário. Alertou, porém, para o risco de a Reserva Federal perder independência — um fator que aceleraria a desdolarização — mas manteve um tom otimista quanto à capacidade dos EUA de se reorganizarem fiscalmente.

Louvet reiterou que o ouro tem uma função única: pode ser trocado diretamente entre bancos centrais e emprestado, algo impossível para criptoativos. Considera plausível um mundo menos dolarizado, mas sem substituição clara no horizonte. O yuan poderá ganhar relevância, “mas só daqui a décadas”.

A sessão terminou com uma ideia dominante: a desdolarização não é mito, mas tampouco é uma revolução iminente. O dólar continua a ser “a camisa menos suja”, nas palavras de Biemann, enquanto ouro e acordos bilaterais emergem como contrapesos num sistema cada vez mais multipolar.

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