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Bancos europeus com maior exposição a emissões pagam taxas mais elevadas no mercado interbancário

Estudo do BCE revela que instituições financeiras ligadas a setores poluentes enfrentam custos de financiamento até 12% superiores, com efeito amplificado em períodos de crise.

08 Jan 2026 - 11:58

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BCE sede | Foto: ecb multimedia

BCE sede | Foto: ecb multimedia

As alterações climáticas deixaram de ser uma questão exclusivamente ambiental para se tornarem um fator concreto de risco financeiro. Um novo estudo do Banco Central Europeu (BCE) mostra que os bancos europeus mais expostos a emissões de gases com efeito de estufa, através dos créditos que concedem a empresas poluentes, pagam taxas de juro significativamente mais elevadas no mercado de empréstimos interbancários de curto prazo.

A investigação analisou 2,3 milhões de transações no mercado de recompra europeu entre 2019 e 2022, envolvendo os 46 maiores bancos da zona euro. Os resultados revelam que um aumento de um desvio-padrão nas emissões financiadas está associado a um acréscimo de 7 a 12% nas taxas de juro que esses bancos pagam pelos seus empréstimos de curto prazo, mesmo depois de controlados fatores como a qualidade colateral, a maturidade das transações ou as relações entre instituições.

O documento diz que o chamado “prémio de carbono” não pode ser explicado pelos determinantes habituais da “precificação” no mercado. O BCE conclui que se trata de um novo fenómeno que reflete tanto uma compensação pelo risco crescente associado a setores intensivos em carbono, como as preferências dos grandes bancos que atuam como intermediários no mercado e que, nos últimos anos, assumiram compromissos públicos de sustentabilidade.

Prémio triplica em períodos de tensão financeira

Durante períodos de stress financeiro, o custo adicional que os bancos “castanhos”, aqueles com maior exposição a emissões, enfrentam no mercado multiplica-se por três. Os autores identificaram esta dinâmica ao recorrerem a diversos indicadores de tensão nos mercados, incluindo o Índice de Stress Financeiro da Office of Financial Research dos Estados Unidos e o índice de volatilidade VIX.

Particularmente revelador foi o efeito observado em 2022, após a redução da oferta do sistema de Comércio Europeu de Licenças de Emissão (CELE). Nesse ano, marcado pela crise energética desencadeada pela guerra na Ucrânia e por taxas de carbono que atingiram os 90 euros por tonelada, o prémio pago pelos bancos mais expostos aumentou 7 pontos base nas 12 semanas seguintes à intervenção regulatória.

Transmissão assimétrica da política monetária

O estudo levanta ainda questões sobre a transmissão da política monetária. Durante as subidas de taxas efetuadas pelo BCE em 2022, os bancos com elevadas emissões financiadas ajustaram-se às novas condições cerca de 7% mais rapidamente do que as instituições “verdes”.

Esta assimetria sugere que os grandes bancos intermediários, muitos dos quais aderiram à Net-Zero Banking Alliance – entretanto extinta – e comprometeram-se com metas de descarbonização, estão menos dispostos a oferecer condições favoráveis aos seus pares mais poluentes após aumentos das taxas diretoras.

Risco ou preferências?

Os investigadores procuraram perceber se o prémio de carbono reflete um risco de crédito acrescido ou se é antes expressão das preferências dos bancos intermediários. Por um lado, bancos com maior exposição a setores intensivos em carbono enfrentam custos operacionais crescentes à medida que as políticas climáticas se tornam mais restritivas, o que aumenta o risco de incumprimento dos seus mutuários. Por outro lado, há evidências de que grandes bancos europeus valorizam a sustentabilidade das suas carteiras e penalizam ativamente contrapartes menos alinhadas com objetivos climáticos.

O efeito torna-se mais pronunciado em transações menos padronizadas, em prazos mais longos e quando o colateral provém do setor não-financeiro. Mas também se intensifica após bancos intermediários terem aderido a compromissos voluntários de clima, o que aponta para uma componente de “prémio de inconveniência”, o custo de fazer negócios com quem não partilha os mesmos valores ambientais.

Num contexto em que a União Europeia procura liderar a transição para uma economia de carbono neutro até 2050, os autores defendem “um novo paradigma político que integre o risco climático nas avaliações de risco sistémico, especialmente tendo em conta o papel vital do mercado de recompra no sistema financeiro”.

Adicionam que “políticas destinadas a mitigar o impacto do risco climático nos mercados interbancários, juntamente com uma maior divulgação do risco climático e a implementação de quadros robustos de testes de esforço, ajudariam a avaliar e reduzir o risco sistémico relacionado com a transição”.

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