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A acessibilidade digital na banca: uma obrigação regulatória e uma oportunidade estratégica
Por Duarte Conceição, CEO da Contisystems
15 Mai 2025 - 07:09
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Num contexto de transformação digital acelerada, o setor bancário europeu enfrenta um novo desafio e, simultaneamente, uma oportunidade: garantir que os seus produtos e serviços digitais sejam acessíveis a todos os cidadãos, incluindo pessoas com deficiência. Esta exigência decorre da Diretiva (UE) 2019/882, conhecida como European Accessibility Act (EAA), que impõe novos requisitos de acessibilidade para produtos e serviços considerados essenciais, entre os quais se incluem os serviços bancários e financeiros.
Esta diretiva, cuja transposição para o ordenamento jurídico nacional já foi realizada, representa um marco importante na promoção de uma sociedade mais inclusiva. Mas para os bancos o seu impacto vai muito além da conformidade legal: a acessibilidade digital é, cada vez mais, um fator diferenciador na experiência do cliente, um vetor de inovação e um requisito para a sustentabilidade reputacional.
A diretiva e as suas implicações para o setor bancário
Entre outros produtos e serviços enunciados, o EAA estabelece que as regras de acessibilidade são aplicáveis a vários serviços bancários, como alguns tipos de contratação de crédito, serviços e atividades de investimento, serviços de pagamento ou serviços associados às contas de pagamento e moeda eletrónica. De uma forma transversal aos vários setores, o EAA determina ainda que bens como terminais de autosserviço (onde se incluem os terminais de pagamento e as caixas automáticas) devem cumprir requisitos técnicos e funcionais de acessibilidade.
Estes requisitos alinham-se com normas reconhecidas internacionalmente, como as Web Content Accessibility Guidelines (WCAG), e visam assegurar que todas as pessoas, independentemente das suas capacidades, consigam aceder e utilizar os serviços com autonomia, segurança e eficácia.
A obrigatoriedade de conformidade aplica-se não apenas às instituições bancárias propriamente ditas, mas também aos fornecedores de tecnologia que lhes prestam serviços. Isto significa que a acessibilidade deverá estar incorporada de forma transversal nos processos de conceção, desenvolvimento, aquisição e manutenção de soluções digitais.
Acessibilidade como valor e não apenas como cumprimento
Tradicionalmente, o cumprimento de normas de acessibilidade não foi encarado como uma prioridade, sendo muitas vezes encarado como um custo adicional ou uma exigência técnica menor. Esta perceção tem vindo a mudar. Hoje, há uma consciência crescente de que o design inclusivo melhora a experiência de todos os utilizadores, não apenas dos que têm deficiência.
Tomemos como exemplo a navegação por teclado ou por comandos de voz — funcionalidades essenciais para utilizadores com limitações motoras ou visuais, mas igualmente úteis para utilizadores seniores, ou em contextos em que o uso do rato ou do ecrã tátil não é prático. Do mesmo modo, contrastes visuais adequados, textos claros e interfaces simplificadas beneficiam qualquer utilizador, sobretudo num contexto em que a literacia digital e a diversidade etária dos clientes bancários é ampla.
Ao incorporar critérios de acessibilidade desde as fases iniciais dos seus projetos, os bancos podem não só cumprir as obrigações legais, mas também reduzir custos futuros com correções, evitar barreiras tecnológicas e responder melhor às expectativas de um mercado cada vez mais sensível à inclusão.
A tecnologia como aliada da inclusão
A inovação tecnológica oferece um leque crescente de soluções para tornar os serviços bancários mais acessíveis. Destacam-se, por exemplo:
– A utilização de inteligência artificial para criar assistentes virtuais que compreendem linguagem natural e estão preparados para interações inclusivas;
– A integração de funcionalidades de leitura de ecrã, legendas automáticas e tradução para linguagem gestual nos canais digitais;
– O uso de design responsivo que adapta automaticamente a apresentação dos conteúdos a diferentes tamanhos de ecrã e necessidades do utilizador;
– Ferramentas de auditoria automatizada que permitem verificar, em tempo real, se uma aplicação ou website cumpre os critérios de acessibilidade.
Estas soluções, quando bem implementadas, não são apenas instrumentos de conformidade, mas motores de diferenciação num setor onde a confiança e a experiência do cliente são determinantes.
Consequências da inação e vantagens da liderança
Os riscos da não conformidade são reais: desde sanções administrativas e exclusão de concursos públicos, até à erosão de reputação num mercado altamente competitivo. Mas mais importante do que os riscos são as oportunidades: os bancos que adotarem uma postura proativa na integração da acessibilidade digital têm a possibilidade de:
– Alargar a sua base de clientes, incluindo pessoas com deficiência e populações envelhecidas;
– Reforçar a sua imagem institucional enquanto entidades responsáveis e inovadoras;
– Antecipar-se às exigências regulatórias e beneficiar de uma transição mais fluida e sustentável.
Existem já exemplos concretos, a nível europeu, de instituições que colocaram a acessibilidade no centro da sua estratégia digital — não por imposição, mas por estratégia. Estas organizações estão a colher os frutos de uma aposta que combina tecnologia, responsabilidade social e visão de longo prazo.
A acessibilidade digital deixou de ser uma nota de rodapé para se tornar um tema central na agenda do setor financeiro. A sua implementação exige investimento, planeamento e envolvimento de várias áreas das organizações bancárias — desde a tecnologia à gestão de produto, da comunicação à conformidade legal. Mas é também uma oportunidade rara de alinhar inovação com propósito, tecnologia com ética, e negócio com inclusão.
Os bancos que reconhecerem este potencial e o incorporarem na sua estratégia não só estarão preparados para os desafios regulatórios que se avizinham, como estarão a construir um setor financeiro mais justo, mais acessível e, por isso, mais resiliente.
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