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2025 – o ponto de inversão no sistema financeiro europeu

29 Dez 2025 - 07:30

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Escolher os melhores — ou os que tiveram maior impacto, como é o caso — é sempre um exercício difícil. Por muito que queiramos ser objetivos, sabemos que não o vamos conseguir. Estamos a olhar a partir de um determinado ângulo, com os nossos conhecimentos e sentimentos humanos. É, claramente, uma escolha subjetiva. Mas o facto de ser subjetiva, no nosso caso, não desvaloriza o que escolhemos; pelo contrário. Trata-se do olhar de um conjunto de jornalistas, com formação e imbuídos de espírito de missão, que estiveram um ano inteiro a observar com atenção o que se passa no setor. Um olhar privilegiado.

Foi com base neste raciocínio que concordámos em escolher as personalidades e os acontecimentos do ano. Devo dizer que as escolhas não foram particularmente difíceis. Este foi um ano algo assustador, em que aconteceu tanto a nível político que o sistema financeiro, apesar de estar sempre no olho do furacão, pode até ter passado despercebido para o comum dos mortais.

Mas quem, como os nossos leitores, acompanha diariamente os acontecimentos sabe que estamos a navegar em águas muito pouco estáveis para o setor, não só devido à forte transformação tecnológica que está a permitir o surgimento de tecnologias e “players” totalmente disruptivos, mas também devido à forte desregulação que começou nos EUA e que lançou ondas por todo o mundo, incluindo — e sobretudo — a Europa. O colete de forças regulamentar em que vivem os bancos europeus, entre exigências locais e europeias, parece ter chegado ao seu limite. Parece que, finalmente, chegámos a um ponto de inversão. Ou a Europa consegue reestruturar e simplificar o seu edifício regulamentar para permitir o crescimento e a adoção rápida de novas soluções, ou as nossas instituições financeiras perderão para sempre a pouca influência que ainda têm no sistema financeiro global.

Os acontecimentos do ano, a nível nacional e internacional, curiosamente, tocam num acorde semelhante, mas com tons totalmente distintos. Em termos nacionais, pareceu-nos óbvio que a compra do Novo Banco foi o acontecimento mais importante. Considerámos outros, como a atribuição de um IBAN nacional à Revolut, a entrada em vigor do DORA e, mais recentemente, do MiCA — regulações que irão certamente desenhar o futuro próximo do setor — ou mesmo a regulamentação dos gestores de crédito. Mas quisemo-nos cingir aos factos, e o que nos pareceu mais factual foi, claramente, o sucesso do processo de venda do Novo Banco.

Devo dizer que, pessoalmente e enquanto portuguesa, teria preferido que o Novo Banco tivesse sido vendido em bolsa, através de um IPO. O trabalho que esta gestão desenvolveu foi claramente positivo e penso que os portugueses teriam aderido, para além de se reforçar o nosso mercado de capitais. Todavia, perante a hipótese de a Caixa Geral de Depósitos ficar com o banco, ou parte dele, ou, em alternativa, de este ser integrado num banco espanhol, é caso para dizer: “venha o diabo e escolha”.

Devo também dizer que, apesar de, por princípio, não gostar de ver um Governo de um país europeu a interferir diretamente num negócio privado entre europeus — por palavras ou atos —, o nosso Governo, na pessoa do Ministro Miranda Sarmento, conseguiu emendar rapidamente o imbróglio que havia criado ao afirmar, de forma aberta, que não queria cá mais espanhóis. Ao patrocinar a venda do Novo Banco ao BPCE, resolveu a questão política e económica sem ter de chegar a um confronto direto. Não sei exatamente quem foi o principal arquiteto deste negócio, mas penso que o Estado português contribuiu ativamente para este desfecho. Resta agora perceber se foi a melhor opção.

Os espanhóis, do seu lado, não sei se tiveram tanta sorte. Embora simpatize com as pretensões dos catalães do Sabadell, devo dizer que o fracasso da OPA me suscita sentimentos contraditórios. Por um lado, é evidente que representa um insucesso da autoridade europeia, uma vez que o objetivo é promover bancos grandes e fortes, e não regionalismos. Como já referi, um governo nacional não deve intervir nestes negócios, a não ser por via das autoridades da concorrência, que são politicamente independentes. Não foi isso que aconteceu, e é lamentável.

Por outro lado, não deixo de admirar o espírito combativo dos catalães e dos seus adversários — “nuestros hermanos” —, que contribui não só para um debate aberto sobre os limites que a intervenção política deve ter nestes assuntos, como também sobre o poder do mercado de capitais e os benefícios da manutenção da autonomia. Sem querer fugir muito ao assunto, devo dizer que defendo a tese de que a construção europeia se edificou também com base no reforço dos regionalismos que proliferam por toda a Europa, o que é perigoso. Em Portugal não sentimos esta questão porque não existem movimentos independentistas, mas penso que quem olha a partir de outros ângulos — como o espanhol, o belga, o italiano ou mesmo o alemão — não pode deixar de concordar. Resta saber se esta estratégia foi, ou é, adequada. Como construir grandes grupos europeus se nem com os nossos vizinhos e/ou compatriotas nos conseguimos entender?

É neste contexto que introduzo a personalidade do ano a nível internacional: a portuguesa Maria Luís Albuquerque. Escolhemos a Comissária Europeia em detrimento de outras figuras que também mereciam destaque, como, por exemplo, o presidente da Reserva Federal americana, Jerome Powell. Devo dizer que, mesmo correndo o risco de o nosso raciocínio estar enviesado pelo facto de sermos portugueses, Maria Luís conseguiu um feito importante: marcar a agenda, tanto pelos seus sucessos como pelos seus insucessos.

Os insucessos passam, desde logo, pelas OPAs falhadas em vários países europeus, onde fica claramente espelhado que são os interesses nacionais que continuam a conduzir o futuro da banca europeia. Veja-se o caso de Espanha, Itália ou Alemanha. Apesar de ter definido bem o seu desígnio, Maria Luís não conseguiu contrariar a “realpolitik” que prevalece neste domínio. Mas não seria justo atribuir-lhe pessoalmente esses insucessos, pois são reflexo das limitações políticas da construção europeia, que não podem ser resolvidas por uma única pessoa.

O que importa é que a Comissária portuguesa já abriu vários dossiês importantes, como explica o nosso editor executivo, Miguel Ganhão, no texto que acompanha estas escolhas, e tem demonstrado coragem, iniciativa e resiliência ao apontar o dedo ao que não é admissível. Endereçou temas estruturantes, como a “União da Poupança e dos Investimentos” e tudo o que deriva dessa nova arquitetura ou, mais recentemente, a abertura a uma integração da supervisão dos mercados financeiros. Uma supervisão europeia que me parece óbvia, sobretudo no que diz respeito a infraestruturas que não se deixam dominar por fronteiras, como é o caso dos produtos e serviços baseados em “blockchain”, nomeadamente os criptoativos. A experiência operacional que Maria Luís Albuquerque adquiriu nos cargos que já ocupou revelou-se, sem dúvida, uma mais-valia neste primeiro mandato, e desejo sinceramente que consiga criar condições para que os banqueiros e financeiros de âmbito nacional não vejam o mercado único europeu como um colete de forças para as suas ambições nacionais e internacionais, mas antes como uma grande vantagem para expandir a sua influência.

Resta-me deixar uma nota sobre a personalidade do ano a nível nacional: o líder do Banco de Fomento. Gonçalo Regalado, com a sua juventude e, sobretudo, energia, conseguiu imprimir uma dinâmica no Banco de Fomento nunca vista. Como o próprio referiu numa apresentação que fez em outubro, no Porto, a propósito do lançamento de novos “Instrumentos Financeiros para a Inovação e Competitividade”, alcançou o “milagre da multiplicação das garantias”, ao atribuir, em apenas nove meses, um montante superior ao concedido nos últimos quatro anos: cerca de 5 mil milhões de euros, contra 1,5 mil milhões.

Isto foi possível através de um trabalho de desburocratização e simplificação de procedimentos, da atribuição de garantias pré-aprovadas a um conjunto muito significativo de empresas e de uma dinâmica comercial pouco usual numa empresa pública. Para além dos resultados visíveis, ao darmos este destaque nacional interessa-nos também evidenciar alguns traços que nos parecem particularmente bem-vindos num setor que, de um modo geral, é bastante cinzento. Para além da energia e jovialidade já referidas, destacamos a capacidade e vontade de comunicação, o conhecimento dos dossiês — foi responsável por esta área no Millennium BCP, pelo que sabe bem o que é necessário fazer — e a forma frontal e pragmática como resolve os desafios. Veja-se, por exemplo, a forma como colocou termo, de imediato, a um diferendo que o banco mantinha com o Governo dos Açores nos tribunais, optando pela sua resolução por via negocial. Não menos importante é a divulgação sucessiva de metas a atingir — metas que podem ser escrutinadas por todos nós, que dinamizam a equipa e reforçam a accountability. Estamos muito interessados em seguir o seu mandato.

Não queria terminar esta crónica de fim de ano sem agradecer a todos os que confiaram em nós em 2025 e que nos permitem existir: os nossos patrocinadores e anunciantes, bem como todos os leitores do jornal, no site, nas “newsletters” e nas redes sociais. São milhares. Gostaria ainda de realçar a equipa pequena, mas excecional, que faz o jornal todos os dias, agradecendo o seu empenho e dedicação. Estamos a construir um grande jornal. Obrigada a todos.

 

 

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